Caverna de lobo, boca de dragão - Irreversível III

Caverna de lobo, boca de dragão - Irreversível III

Autor(a) Nelson González Leal

Upload 2009-08-22 18:27

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Exif/Informação Técnica

Olympus Trip 35, com filme Kodak Portra 400 VC (vencida desde marco 2007). ISO 400 40mm F/2.8 1/40


Resumo

Brasilia tem uma vida underground, subterrânea, e não precisamente pelo metrô, porque este sistema de transporte é incipiente ainda e além limpo, bem cuidado e excessivamente asséptico.
Não, a vida underground, com seus aromas acres, ácidos, fétidos, suarentos, orinosos, merdosos, está nas passagens que conectam os setores residenciais que se localizam em cada uma das asas sul e norte do plano piloto. Passagens que lembran -pelo menos a minha esposa acontece isso- aquela cena do filme Irreversível, quando a Mónica Belluci é estuprada.
Estas passagens são escuras de dia, pouca luz entra e circula entre suas paredes, todas borradas, algumas com maior sorte que outras, porque abrigam pintas grafiteiras de certa qualidade. Mas nenhuma, nenhuma se salva, da ação irresponsável dos bêbados, dos amanhecidos, dos mendigos a quem o sistema nega banhos para dar uma ducha e liberar sua bexiga e intestinos. Tudas essas passagens são fétidas, ou pelo menos todos os que eu conheço.
Se são escuros de dia, imaginem-nos de noite, com escassa iluminação artificial, e quase toda esta imprestável.
Não obstante, estas passagens têm seu encanto, um pouco perverso. São incitantes, desafiam a imaginação artística, prometem aventuras sensoriais, desafiam a criatividade e o sonho.
Aqui deixo apenas uma amostra, a do tunel que conecta as quadras 213-214 com as 113-114 da asa sul. Fiz estas imagens entre 10 e 11 da noite. Empreguei uma câmara Olympus Trip 35 com filme Kodak Portra 400 VC, vencida desde março de 2007. Julguem por vocês mesmos o irreversível.

Para ver o trabalho completo podem ir a http://signusphotosite.com

Comentarios

Esta foto foi comentada 4 vezes

  1. JET ...
    JET ... em 2009-09-03 | denunciar

    Vou comentar usando parte de um texto que ilustra um dos meus trabalhos, ok? .... "É esta Torre de Papel que irá albergar uma parte da "nossa" sociedade, mas tal como a sua célebre antecedente histórica e outras mais recentes, as suas bases / fundamentos / razões / objectivos estão longe de um urbanismo infalível (se é que isso existe...). Não é casuística a utilização de um edifício de Oscar Niemayer em BH (invertido e bastante distorcido) sobre uma vista aérea de Lisboa "enevoada". Cabe aqui uma nota prévia de respeito a Niemeyer, como senhor intemporal da luz e formas em que o ser humano é o "cliente" único de uma obra. Figura incontestada, as suas obras são por demais conhecidas, não esquecendo também o lado humano que projectou uma habitação para o seu motorista numa favela... Brasília capital de um novo país, símbolo de uma nova era, moderna, bonita, monumental e genuinamente brasileira, será talvez das suas criações / intervenções mais comentadas. A sua referência neste contexto é apenas um dos vários exemplos possíveis, reforçada pelo facto de ser bonita, pensada, filha de “bons pais” e mesmo assim repleta de problemas. Pretendia-se uma cidade que atendesse às necessidades básicas definidas na Carta de Atenas, habitação, lazer, trabalho e transporte. Além disso, as classes sociais viveriam de forma harmoniosa ocupando espaços iguais e justapostos, evitando-se assim o conflito de classes, intrínseco ao capital. Dos dois objectivos que se tinha em vista, criar uma nova capital símbolo de uma nova era e harmonizar a vida dos seus moradores, só o 1º foi alcançado. Hoje Brasília conta com uma população segmentada, os que trabalham na cidade símbolo e os que vivem nas cidades satélites. A pobreza e o conflito de classes não ocorre dentro do plano piloto, mas existe em suas bordas... “a realidade brasileira venceu o sonho”. Capital de um país cheio de oposições, de conflitos, não poderia ser diferente - é produto e obra ao mesmo tempo, um simulacro, anacrónica, é linda e monumental escondendo a pobreza e a feiura típica das grandes cidades. Não tem um museu nacional, mas é um enorme museu a céu aberto narrando a construção da identidade nacional. Cabe distinguir arquitectura e urbanismo... arquitectura tem que ser "boa", ser usada, e se possível "bonita"; urbanismo é uma ciência que engloba muitas outras, e a arte resultante tem que funcionar e ser vivida! Esta Papel utópica, mas não muito diferente de outras, encerra em si todos os problemas e questões básicas: transito caótico, controle de princípios por conveniência, trabalho infantil, suicídio, dilemas e desentendimentos vários (e não só os linguísticos), confusão entre politica social e partidarismo, interesses de minorias a sobrepor-se ao bem social, reizinhos instalados em tronos instáveis, introdução das velhas máquinas de "consumo" a todos os níveis, chamem-se elas Marijuana ou Loja dos Chineses que proliferam antes das infraestruturas básicas e do pensar regras. No entanto ergue-se, oponente, imponente, brilhante... mas implodindo na sua génese e derretendo como um gelado ao sol!" ..... é isso aí!

  2. Rui  Lindner Costa
    Rui Lindner Costa em 2009-08-27 | denunciar

    Excelente!

  3. Sandra
    Sandra em 2009-08-27 | denunciar

    Excelente registro !

  4. Frederico Foroni
    Frederico Foroni em 2009-08-22 | denunciar

    Grande foto!!!
    Cores belas e marcantes!!!
    Parabêns pela idéia!!!
    5*****