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O escorregadio amanhã.

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Outros

2011-10-17 18:55:34
comentários (30) galardões descrição exif favorita de (31)
descrição
O escorregadio amanhã.

Sebastião tinha uma camisola que gostava de envergar todos os dias que podia. Pretendia usá-la até se rasgar de velha e, mesmo assim, perpetuá-la no corpo não estava fora do alcance da sua congeminação.
Parece que são gostos de uma certa idade, quando aquela certeza menina de ser fica de olhos em bico e só se vê brilhante com pedaços de tecido feitos roupa, farda da diária determinação. Sebastião era uma criança igual às outras, se é que a igualdade nasceu para ser irmã da infância, palavrão tão desigual entre os pólos. Tinha acesso ao ar que respirava, tacteava as coisas tácteis que se atravessavam, pisava o chão com os pés, tal como a gravidade o tinha ensinado, certa vez.
Carregava nos ombros uma sacola repleta de ilusões, já lia livros sem bonecos pintados, algo que lhe tornava os passos abstractos, ouvia músicas de uma redonda estação, jogava com os amigos a tudo o que se comprava, excepto ao berlinde, à macaca e ao pião. Andava na escola dos outros meninos e ria-se para o sol, encantado por não saber explicar o momento, a circunstância, a razão de continuar a rir.
Bebia dos pais o carinho sem taxas, encostava-se ao conforto de sapatos sem graxa, comia o que não sabia de onde provinha e chateava-se em casa na peregrina ideia de querer partilhar um irmão. Tinha gripes no frio, suores no verão, tinha dois tios, avós que o beijavam na sofreguidão, tinha tempo para tudo e de tudo fazia um pátio riscado, aqui e ali atormentado por uma pequena lesão. Tinha risos para dar, lágrimas inesperadas em quedas sem licença, tinha calções para a bola e casacos gordos e quentes, cachecóis garridos e gorros com a marca da mão. Na não novidade, havia felicidade em todos os dias em que assim era, o Sebastião.
Pele tisnada, velocidade de ponta nas corridas da playstation e uma colecção de cromos do clube que lhe ganhava o vício, fosse lá o que tivesse acontecido naquele fim-de-semana de perfeita ilusão. Arranjava-se para as visitas, no incómodo de se pentear e ainda não tinha aprendido a medida das certezas e muito aflito ficaria se lhe dissessem que de elas nunca ficaria certo, porque assim não nasciam, porque alguém as mudaria, porque sim e porque não.
Sebastião tinha tudo para não lamentar o baile dos ponteiros no salão dos dias. A não ser aquela vez, em que tudo fez para se manter aprumado, mas de lágrimas caídas se detinha. A ouvir, quarto ao lado em parede de papelão, onde os seus pais concluíam que mais valia não lhe guardarem imagens frontais, que isto hoje em dia é uma guerra de armas escondidas em decisões escuras e mais ainda ecoava, naquelas palavras feridas de medo, ao resolverem que cada passo escorrega nas mãos de quem lhes decide o futuro. E mais, mais ainda ouvia agora, no som alterado de um dito futuro que, afinal, é um retrato que só pode ser tirado de costas e olhar virado para o perigo do chão.
exif / informação técnica
Máquina: Canon
Modelo: Canon EOS 450D
Exposição: 1/400
Abertura: f/9
ISO: 200
MeteringMode: Pattern
Flash: Não
Dist.Focal: 200 mm

favorita de 31
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O escorregadio amanhã.
O escorregadio amanhã.

Sebastião tinha uma camisola que gostava de envergar todos os dias que podia. Pretendia usá-la até se rasgar de velha e, mesmo assim, perpetuá-la no corpo não estava fora do alcance da sua congeminação.
Parece que são gostos de uma certa idade, quando aquela certeza menina de ser fica de olhos em bico e só se vê brilhante com pedaços de tecido feitos roupa, farda da diária determinação. Sebastião era uma criança igual às outras, se é que a igualdade nasceu para ser irmã da infância, palavrão tão desigual entre os pólos. Tinha acesso ao ar que respirava, tacteava as coisas tácteis que se atravessavam, pisava o chão com os pés, tal como a gravidade o tinha ensinado, certa vez.
Carregava nos ombros uma sacola repleta de ilusões, já lia livros sem bonecos pintados, algo que lhe tornava os passos abstractos, ouvia músicas de uma redonda estação, jogava com os amigos a tudo o que se comprava, excepto ao berlinde, à macaca e ao pião. Andava na escola dos outros meninos e ria-se para o sol, encantado por não saber explicar o momento, a circunstância, a razão de continuar a rir.
Bebia dos pais o carinho sem taxas, encostava-se ao conforto de sapatos sem graxa, comia o que não sabia de onde provinha e chateava-se em casa na peregrina ideia de querer partilhar um irmão. Tinha gripes no frio, suores no verão, tinha dois tios, avós que o beijavam na sofreguidão, tinha tempo para tudo e de tudo fazia um pátio riscado, aqui e ali atormentado por uma pequena lesão. Tinha risos para dar, lágrimas inesperadas em quedas sem licença, tinha calções para a bola e casacos gordos e quentes, cachecóis garridos e gorros com a marca da mão. Na não novidade, havia felicidade em todos os dias em que assim era, o Sebastião.
Pele tisnada, velocidade de ponta nas corridas da playstation e uma colecção de cromos do clube que lhe ganhava o vício, fosse lá o que tivesse acontecido naquele fim-de-semana de perfeita ilusão. Arranjava-se para as visitas, no incómodo de se pentear e ainda não tinha aprendido a medida das certezas e muito aflito ficaria se lhe dissessem que de elas nunca ficaria certo, porque assim não nasciam, porque alguém as mudaria, porque sim e porque não.
Sebastião tinha tudo para não lamentar o baile dos ponteiros no salão dos dias. A não ser aquela vez, em que tudo fez para se manter aprumado, mas de lágrimas caídas se detinha. A ouvir, quarto ao lado em parede de papelão, onde os seus pais concluíam que mais valia não lhe guardarem imagens frontais, que isto hoje em dia é uma guerra de armas escondidas em decisões escuras e mais ainda ecoava, naquelas palavras feridas de medo, ao resolverem que cada passo escorrega nas mãos de quem lhes decide o futuro. E mais, mais ainda ouvia agora, no som alterado de um dito futuro que, afinal, é um retrato que só pode ser tirado de costas e olhar virado para o perigo do chão.
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Modelo: Canon EOS 450D
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MeteringMode: Pattern
Flash: Não
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